Clássicos nunca morrem

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TRÊS COISAS QUE A CULTURA DO AUTOMÓVEL PODE TER FEITO VOCÊ ESQUECER

Como carecemos de histórias milenares e de longas dinastias que jus­ti­fi­quem os nossos tem­pe­ra­men­tos, nas Américas adotamos desde cedo uma nova mitologia, uma narrativa ori­en­ta­dora que alongamos dos des­co­bri­men­tos e das caravelas: a ideia de que ocupar espaços – em alguns casos, sim­ples­mente transpor espaços – é uma coisa boa, sufi­ci­ente e admirável.

É a mesma música que rege as entradas dos ban­dei­ran­tes no século dezessete, o avanço dos norte-americanos Oeste adentro no século dezenove e a cons­tru­ção de Brasília no século vinte. Até hoje, nas Américas, nos con­si­de­ra­mos muito mais ocupantes do espaço do que da história.

Um emblema da paixão con­ti­nen­tal pela narrativa da ocupação do espaço é a nossa relação com o automóvel. O automóvel é ideia popular em todo o mundo, mas foi no Novo Mundo que o alçamos à condição de mito. Na narrativa con­tem­po­râ­nea das Américas, o grande ritual da matu­ri­dade não é casar-se ou entrar no mercado de trabalho; não é ter um filho, comprar uma casa ou matar um tigre: é desenhar com as mãos a cir­cun­fe­rên­cia da direção de um carro, o seu carro.

No Velho Mundo é diferente, mas no Novo ser privado de um carro é ser sim­bo­li­ca­mente privado de autonomia e de poder. Embalados pelo discurso de liberdade do neo­li­be­ra­lismo, vemos um auto-móvel não como uma máquina que se move sozinha, mas como uma máquina que nos move sozinhos.Como insígnia de autonomia e auto­de­ter­mi­na­ção, a posse de um automóvel nos parece coisa ine­ren­te­mente boa, e um mundo em que cada um tem o seu carro um mundo ajustado e justo.

Permita-me apontar três coisas que a cultura do automóvel pode ter levado você a esquecer.

1. Um carro é uma arma

Num dos manuais de trânsito que os anos me obrigaram a ler está escrito que cada pro­ta­go­nista do trânsito deve sentir-se res­pon­sá­vel pela segurança dos con­du­to­res de veículos que podem causar menor estrago do que o veículo dele. Desse modo, caminhões devem zelar pela segurança de auto­mó­veis, auto­mó­veis devem zelar pela segurança de moto­ci­cle­tas, moto­ci­cle­tas devem zelar pela segurança de bici­cle­tas, e todos devem zelar pela segurança dos pedestres.

Esse cenário me enternece o coração, e depois de vê-lo descrito desse modo nunca consegui pensar no trânsito de uma outra forma. Porém essa bem-desenhada utopia esconde uma lógica brutal: se ela faz sentido é só porque gente armada deve sentir-se logi­ca­mente res­pon­sá­vel pela segurança de gente desarmada.

Mesmo quando falam das mortes no trânsito as retóricas oficiais procuram evitar esse modo de dizer, mas um automóvel não é menos que uma arma.

Você sentiria grave des­con­forto se o obri­gas­sem a manusear um revólver carregado, mas sente-se à vontade dirigindo um automóvel. Qual é a diferença?

Se você precisa de esta­tís­ti­cas que deem peso à com­pa­ra­ção, não tardará a encontrá-las. Dou-lhe três: no Brasil o número de mortes no trânsito cresceu 40% entre 2002 e 2012. Estima-se que em 2014 o trânsito bra­si­leiro vai matar 48.349 pessoas; são 4029 mortes ao mês, 132 mortes por dia, 6 mortes por hora, uma morte a cada 10 minutos. Não somos conhe­ci­dos como um país pouco violento, mas o número de bra­si­lei­ros mortos no trânsito ultra­pas­sou recen­te­mente o número de vítimas de homi­cí­dios – querendo dizer, o esforço acumulado (e nada negli­gen­ciá­vel) de todos os assas­si­nos e todas as armas de fogo do Brasil não consegue matar de modo mais eficaz do que as inte­ra­ções entre seres humanos e veículos acima do asfalto.

Se não estamos habi­tu­a­dos a pensar num automóvel como uma arma é porque não convém à narrativa glit­te­ri­zada propagada pela indústria. Milhões em pro­pa­ganda são alocados no esforço de fazer a sua cabeça e de mantê-la feita. Você sentiria grave des­con­forto se o obri­gas­sem a manusear um revólver carregado, mas sente-se à vontade dirigindo um automóvel. Qual é a diferença?

2. Para reclamar do trânsito basta fazer parte do problema

Não é coisa inédita ver pedestres, ciclistas e usuários do trans­porte público mal­di­zendo os embaraços do tráfego, mas para reclamar com ver­da­dei­ros pro­fis­si­o­na­lismo, paixão e con­sis­tên­cia é preciso ter um automóvel. Só quem tem um carro entende o quanto as agruras do trânsito tolhem o avanço e a mobi­li­dade que nos parecem nossos por direito – que seriam nossos por direito, se o nosso veículo tivesse ocasião de fluir com a liberdade que foi desenhado para ter, a liberdade que nos prometem… os anúncios de automóvel.

O ponto cego dessa equação, natu­ral­mente, está em que os que reclamam com maior sen­ti­mento da amarração do trânsito são os maiores res­pon­sá­veis por ela. Não é que a lentidão do trânsito torna difícil a exis­tên­cia dos pro­pri­e­tá­rios de automóvel; são os pro­pri­e­tá­rios de automóvel que tornam possível a exis­tên­cia da lentidão do trânsito.

O automóvel ultra­pas­sou há muito tempo aquilo que Ivan Illich chama de “segundo divisor de águas” – o momento em que uma solução tec­no­ló­gica que parecia ini­ci­al­mente sensata e con­ve­ni­ente acaba pro­du­zindo os próprios problemas que se dispunha a solu­ci­o­nar. A dis­po­ni­bi­li­dade universal de carros cada vez mais velozes não tornou o trânsito menos lento, não tornou o des­lo­ca­mento mais ágil e não nos deu a liberdade de perder menos tempo no trânsito. Ao contrário: “os veículos acabaram criando dis­tân­cias maiores do que as que ajudaram a cobrir”.

Você reclama do trânsito, mas bastam o seu carro e o carro do seu vizinho Celso para seques­trar o espaço de um ônibus de quarenta lugares (e a mate­má­tica é generosa: um único ônibus de quarenta lugares pode repre­sen­tar quarenta auto­mó­veis a menos entupindo as veias do trânsito). Você escolheu a sua resi­dên­cia para fugir da opressão da cidade, mas acaba criando para si mesmo novas formas de opressão – inclusive o cons­tran­gi­mento de passar mais tempo em trânsito ouvindo Enya do que des­fru­tando da tran­qui­li­dade que você está pagando sua casa para representar.

Essas duas aparentes con­ve­ni­ên­cias – o automóvel que segundo a lenda pode levá-lo a qualquer lugar quando você quiser e a casa “tranquila” longe do trabalho – transmutaram-se em enormes incon­ve­ni­ên­cias, tanto para você quanto para os outros1. O tráfego lento, amarrado e agressivo da vida real é o resultado coletivo do acúmulo de um número incrível de ilusões indi­vi­du­ais. Não será a primeira vez que o capi­ta­lismo terá con­se­guido engodá-lo com a promessa canalha do excep­ci­o­na­lismo, a ideia de que com você vai ser diferente: que você é especial e pode con­tri­buir para saturar um sistema sem ser pre­ju­di­cado pela saturação dele.

3. O automóvel não é a medida das coisas

Um obser­va­dor extra­pla­ne­tá­rio não terá deixado de notar que em algum momento do século vinte a raça humana foi suplan­tada e colocada em sujeição por uma nova espécie de organismo à base de metal e borracha.

Os auto­mó­veis evoluíram rápido: em poucas décadas já usavam os seres humanos para se alimentar, para repor membros com­pro­me­ti­dos, para curar doenças cir­cu­la­tó­rias e – acima de tudo – para se mul­ti­pli­car em ritmo espantoso. Os seres humanos sujei­ta­ram a terra por muitos milhares de anos, mas a população de auto­mó­veis (que há 100 anos pra­ti­ca­mente não existia) em algumas regiões do planeta já ultra­pas­sou a população de homo sapiens. E, não havendo vacina conhecida, ninguém sabe quando os auto­mó­veis vão parar de usar seres humanos para se multiplicar.

Ini­ci­al­mente os carros usaram os seres humanos para locomover-se de um lugar para outro, mas logo sua postura tornou-se mais agressiva. Através do controle da mente, os auto­mó­veis con­ven­ce­ram as pessoas a ter­ra­for­mar radi­cal­mente as próprias suas cidades e vias de acesso – tornando-as aco­lhe­do­ras para auto­mó­veis, mas intei­ra­mente hostis para os seres humanos insub­mis­sos que insis­tis­sem em deslocar-se a pé. Planícies férteis e riachos mais velhos do que a huma­ni­dade foram aplai­na­dos em esta­ci­o­na­men­tos – enormes praias de concreto sem mar, feias, áridas, impro­du­ti­vas e des­fa­vo­rá­veis a toda vida orgânica – só para fornecer aos novos senhores do mundo um habitat. E, como sinal decisivo da supre­ma­cia dos auto­mó­veis, os seres humanos apren­de­ram a desejar que houvesse um esta­ci­o­na­mento nos lugares em que não encontram habitat favorável para o automóvel do qual são hospedeiros.

Para se entender por completo a extensão dessa lavagem cerebral é preciso pisar um lugar que tenha sido poupado dos seus efeitos: visitar uma cidade medieval europeia (de pre­fe­rên­cia na Itália, onde as gerações resistem mais tei­mo­sa­mente a des­fi­gu­rar as feições da história). Cidades como Siena, Assis e Mon­te­pul­ci­ano (e uma infi­ni­dade de outras menos conhe­ci­das) oferecem uma pers­pec­tiva que no Novo Mundo eli­mi­na­mos ou des­co­nhe­ce­mos: uma paisagem urbana intei­ra­mente desenhada com o homem como medida. Tudo na cidade medieval foi projetado para o deleite de pés e de olhos humanos: as dis­tân­cias entre um lugar e outro, a largura das vias, a oferta de lojas e serviços, a gentil curvatura das ruas, a pers­pec­tiva dos arcos, o abrigo das colunatas, a dis­po­si­ção de praças e igrejas e monu­men­tos. Tudo pode ser per­cor­rido a pé e para ser per­cor­rido a pé foi concebido; tudo que leva o nome de humano divide sem com­pe­ti­ção o mesmo espaço vital: comer­ci­an­tes e resi­dên­cias, artesãos e serviços públicos, mercados e igrejas, escolas e museus, res­tau­ran­tes e fontes de água. Pra­ti­ca­mente não há lugar para esta­ci­o­nar porque, natu­ral­mente, ninguém previu e ninguém deveria ter de prever um espaço que não seja para gente.

Hoje em dia você encontra um carro ou outro nessas cidades medievais, mas são pouco numerosos e são pequenos – e não há quem não entenda que são os auto­mó­veis os estranhos naquele ambiente. Em com­pa­ra­ção, tudo nas metró­po­les bra­si­lei­ras é hostil aos homens e acolhedor para os auto­mó­veis. Há curiosos indícios de que nos horários de pico a forma mais rápida e eficiente de deslocar-se dentro da metrópole é a pé, mas essas indi­ca­ções não são usadas para corrigir a realidade: nada na cidade grande é feito pensando em priorizar a expe­ri­ên­cia dos pedestres.

Quem precisa ter medo de um levante de robôs e de inte­li­gên­cia arti­fi­cial, quando sem a inter­ven­ção desses fatores já nos mostramos dispostos a alterar a face do mundo em favor das máquinas? É assim: a medida das coisas deixou de ser o homem e passou a ser o automóvel. Basta pisar uma cidade grande sem o apa­dri­nha­mento de um veículo para entender o status secun­dá­rio do ser humano na paisagem urbana. Quem está a pé está sozinho contra uma multidão armada.

PAULO BRABO

http://www.baciadasalmas.com/2014/tres-coisas-que-a-cultura-do-automovel-pode-ter-feito-voce-esquecer/

Yes…superman!

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Precisando reativar o tumblr! Agora que acabei mesmo com o facebook( pela segunda vez) talvez seja a hora certa de investir nesta ferramenta. Veremos…

What the superior man seeks is in himself; what the small man seeks is in others.
Confucius (via observando)
ruineshumaines:

Petra, Jordan. Photo © Arturo Lavín.

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Petra, Jordan. Photo © Arturo Lavín.

The venerable dead are waiting in my library to entertain me and relieve me from the nonsense of surviving mortals.
Samuel Davies (via observando)
How does the ordinary person come to the transcendent? For a start, I would say, study poetry. Learn how to read a poem. You need not have the experience to get the message, or at least some indication of the message. It may come gradually.
Joseph Campbell (via observando)
comicbookcovers:

America’s Greatest Comics #5, December 16th 1942, cover by C.C. Beck

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